Gestão da Qualidade em Enfermagem

Fonte: Universidade Nova de Lisboa
Com o aumento da esperança média de vida, a complexidade dos cuidados de saúde e a oferta de cuidados de saúde privados, os cidadãos começam a tomar consciência da qualidade como um direito social, acabando por aumentar as suas expectativas fazendo com que os sistemas de saúde a nível mundial se deparem com uma crescente necessidade de prestar cuidados de saúde seguros e de qualidade (Ribeiro et al., 2017).
A qualidade dos cuidados de saúde em Portugal é uma das prioridades da Direção-Geral da Saúde que considera que " a qualidade e a segurança no sistema de saúde são uma obrigação ética porque contribuem decisivamente para a redução dos riscos evitáveis, para a melhoria do acesso aos cuidados de saúde, das escolhas da inovação, da equidade e do respeito com que esses cuidados são prestados" (Despacho n.º 5613/2015).
A qualidade em saúde, definida como a prestação de cuidados acessíveis e equitativos, com um nível profissional ótimo, que tem em conta os recursos disponíveis e consegue a adesão e satisfação do cidadão, pressupõe a adequação dos cuidados às necessidades e expectativas do cidadão (Despacho n.º 5613/2015).
Segundo Sousa et al. (2019), ao nível da Enfermagem, a melhoria da qualidade deve ser uma preocupação diária para que os utentes sintam que os cuidados que lhe estão a ser prestados apresentam qualidade técnica, cientifica e humana. Pois para o utente, "a qualidade de um serviço resulta da comparação que este efetua do serviço com as expetativas que detinha sobre o mesmo" (Machado, 2013).
"Claramente, nem a qualidade em saúde se obtém apenas com o exercício profissional dos enfermeiros, nem o exercício profissional dos enfermeiros pode ser negligenciado ou deixado invisível, nos esforços para obter qualidade em saúde"(Ordem dos Enfermeiros, 2012).

Assim sendo, a Ordem dos Enfermeiros partiu para a definição dos padrões de qualidade dos cuidados de enfermagem que apresentam seis categorias de enunciados descritivos: a satisfação do cliente, a promoção da saúde, a prevenção de complicações, o bem-estar e o autocuidado, a readaptação funcional e a organização dos cuidados de enfermagem.
Segundo Ribeiro et al. (2017) "os padrões de qualidade indicam à população o que pode esperar em termos de cuidados de enfermagem, e aos enfermeiros o que se espera no seu conjunto e o que cada um deve fazer em prol de um exercício profissional de qualidade".
Também neste âmbito a Ordem dos Enfermeiros tem a decorrer na "Plataforma Enforma" uma Formação na área dos Padrões de Qualidade em Enfermagem (PQCE) / Padrões de Qualidade em Enfermagem Especializados (PQCEE) dirigida às entidades que pretendam candidatar-se à Acreditação da Idoneidade Formativa dos Contextos de Prática Clínica (IFCPC), com pré-candidatura submetida. Aceda aqui.
Fonte: Ordem dos Enfermeiros
Trabalho Realizado em aula
Também no contexto da supervisão clínica em enfermagem estes padrões deverão ser colocados em prática. Foi esse o exercício que realizámos em contexto de aula, tendo o meu grupo de trabalho estado responsável pelo enunciado "Readapatação Funcional".
Neste enunciado procurámos descrever o percurso de um cliente algaliado no internamento por Hipertrofia Benigna da Próstata com necessidade operatória.
O utente ficará a aguardar intervenção cirúrgica e até esse momento terá de manter a algaliação.
Relativamente ao enunciado procurámos abranger mais do que um dos elementos descritos sendo que um dos mais significativos terá sido "o planeamento da alta dos clientes internados em instituições de saúde de acordo com as necessidades dos clientes e os recursos da comunidade" dado ser um dos momentos mais propícios para a implementação de estratégias de supervisão.
Estratégias de Supervisão
- Informar o aluno dos recursos existentes no serviço (documentação pós alta; material visual para ensino; material de treino). Se não existir incentivar o aluno a criar;
- Incentivar a pesquisa de evidência científica para basilar os ensinos (não só o que vai ensinar mas de que forma o vai fazer); Preparar o cliente para eventuais situações adversas;
- Perceber os conhecimentos prévios do cliente e de que forma os pode expandir;
- Integrar o familiar nos cuidados e regime terapêutico e tentar perceber o destino de alta de forma a preparar/adaptar o ambiente às novas necessidades do cliente;
- Treinar junto do cliente os procedimentos a realizar no domicílio, incentivando e motivando assim a autonomia e a segurança do cuidado;
- Procurar recursos na comunidade existentes para a continuidade de cuidados (Ex: Centro de Saúde; onde pode adquirir sacos de despejo; apoio da consulta externa);
- Salientar a importância da nota de alta de enfermagem para a continuidade de cuidados (ensinos; necessidades de continuidade de cuidados);
- Implementar estratégias de avaliação. Avaliar capacidade de realização autónoma do procedimento no internamento; Reavaliação do processo em contexto de consulta para onde fica referenciado do internamento. Durante a consulta fazer um refresh do que foi ensinado e promover o esclarecimento de dúvidas e dificuldades; Internamento recorrente ou idas à urgência por Infeção do Trato Urinário ou complicação associada como indicador;
Trabalho realizado em conjunto com: Daniela Martins e Bruno Poeira
A maioria dos hospitais já apresenta programas e sistemas de gestão da qualidade que "visam a melhoria contínua da qualidade, tendo como objetivos corrigir erros do sistema, reduzir a variabilidade das práticas e melhorar a sua eficácia" (Sousa et al., 2019).

Neste âmbito, no serviço de internamento onde trabalho tenho uma função acrescida como elo de ligação com a Equipa de Gestão de Risco e Qualidade. Estou assim responsável, principalmente pelo cumprimento do enunciado três "a prevenção de complicações". Este tem sido um grande desafio no meu percurso profissional em que acabo também por ter um papel importante enquanto supervisor clínico de pares nesta matéria.
Com esta experiência tenho sentido que a supervisão de pares acaba por ser mais exigente e desafiante que a supervisão de estudantes visto que a "bagagem" dos supervisados já é maior e mais pesada.

Fonte: Istock
Segundo Donabedian (1988) citado por Sousa et al. (2019) a avaliação da qualidade implica conhecer na globalidade a relação entre as suas três dimensões:
- A estrutura que diz respeito aos recursos materiais e humanos disponíveis,
- as caraterísticas do ambiente físico, organizacional e financeiro;
- os processos que correspondem ao conjunto de atividades que são desenvolvidas durante a prestação de cuidados, contemplando os aspetos técnicos, terapêutico e relacionais, onde o comportamento e a ética estão inerentes e os resultados que refletem o efeito, favorável ou adverso decorrentes das ações e procedimento realizados, englobando os resultados clínicos, económicos e de satisfação.

Esta avaliação poderá ser feita através de acreditação - "método de auto-avaliação e auditoria externa por pares, utilizada pelas organizações de saúde na avaliação do seu nível de desempenho em relação a padrões preestabelecidos e implementação de medidas de melhoria" - ou certificação - "processo formal e voluntário, recorrendo ao método de avaliação e reconhecimento de um profissional ou uma instituição de acordo com as boas práticas de gestão da qualidade, com critérios definidos pelas normas da International Organization for Standardization (ISO)" - (Rooney e Ostenberg, 1999 citados por Sousa et al., 2019) Fonte: Freepik
Também desde o início do meu percurso profissional que estou familiarizada com estes tipos de avaliação, nomeadamente com a Acreditação pela Joint Commission Internacional visto que sempre trabalhei em hospitais com este selo de acreditação (Hospital de Vila Franca de Xira e Hospital da Luz), tendo participado em inúmeras auditorias.
Deixo abaixo um vídeo que expressa a importância deste tipo de acreditações.
Referências Bibliográficas
Despacho 5613/2015. (2015). Estratégia Nacional para a Qualidade na Saúde 2015-2020. Diário da República n.º 102/2015, Série II, de 27-05-2015 https://www.dre.tretas.org/dre/845428/despacho-5613-2015-de-27-de-maio
Machado, N. J. B. (2013). Gestão da qualidade dos cuidados de enfermagem - um modelo de melhoria contínua baseado na reflexão-ação. [Tese de Doutoramento, Instituto das Ciências da Saúde da Universidade Catolica Portuguesa]. Repositório da Universidade Católica Portuguesa. https://www.repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/14957/1/101271395.pdf
Ordem dos Enfermeiros. (2012). Regulamento do Perfil de Competências do Enfermeiro de Cuidados Gerais. Lisboa, Portugal: Ordem dos Enfermeiros. https://www.ordemenfermeiros.pt/media/8903/divulgar-padroes-de-qualidade-dos-cuidados.pdf
Ribeiro, O., Martins, M. & Tronchin. D. (2017). Qualidade dos cuidados de enfermagem: um estudo
em hospitais portugueses. Revista de Enfermagem Referência. Série IV (14), 89-100. https://www.doi.org/10.12707/RIV16086
Sousa, A., Martins, C., Pinto, D., Silva, F., Ferreira, L. & Santos, V.
(2019) Gestão da Qualidade em Enfermagem. Journal of Aging &
Innovation. 8 (1), 35 - 48. https://www.journalofagingandinnovation.org/wp-content/uploads/3JAIV8E1.pdf